Paxola, o estelionatário foi um episódio ocorrido em uma grande festa politica, em 1975, em João Pessoa. Vejamos.
Os ônibus, lotados de funcionários, chegavam do interior. Sob um suave sol de fim de tarde, os passageiros desembarcavam e seguiam para o local do evento. Todos se admiravam com as dimensões da obra que estava sendo inaugurada e que abrigaria todas as Secretarias do Governo.
De repente, Paxola, vindo do lado de Cruz das Armas, entra no pátio, com uma indumentária multicolorida, o que chamou a atenção de todos. Era um típico Cigano caminhando lentamente em direção ao entusiasmado público.
Era um homem alto, magro, rosto alongado, barba bem cuidada, trajando calça preta de seda reluzente, presa à cintura por uma corda de fino tecido amarelo, chapéu preto de abas largas com o desenho da estrela de David no topo, camisa branca e colete preto ornado com brilhantes lantejoulas. Uma bota branca, de cano longo, e dois bornais coloridos, cruzados no peito, completavam o figurino.
Paxola, parou no meio do povo, bateu palmas chamando a atenção para seus gestos. Fez-se um grande claro em meio àquele público, em volta do recém-chegado.

De forma bem solene, estirou o braço direito, com o indicador em riste e deu um giro no corpo apontando para os prédios, e gritou, a pleno pulmão, com voz bem gutural:
- Minha gente! Essa é uma obra que vai marcar o Governo de Ernani Sátiro. Aqui vamos trabalhar com bem mais motivação para prestar serviços ao povo paraibano.
Foi aplaudido com entusiasmo.
Quatro mulheres, todas Professoras, vindas de Campina Grande, se aproximaram daquela figura exótica.
- Moço, meu nome é Ester. Você é cigano? Perguntou uma morena magra, com um longo vestido azul, de cabelos cacheados, que parecia a mais jovem do grupo, e que lecionava história geral.
- Sim, respondeu Paxola, estendendo a mão para um cumprimento, no que foi correspondido por todas. E continuou:
- Sou cigano e ensino a arte do tarô aos meus familiares, há muitos anos, lá em Patos, terra do nosso Governador. E faço dessa atividade minha profissão.
- Ah ... é Paxola de Patos. Já ouvi falar de você, disse Alice, Professora de Matemática, outra morena, de pantalona branca, e um pouco mais baixa que Ester.
O povo foi voltando aos espaços vagos, e o cigano e suas amigas foram ficando no aperto.
Paxola colocou a mão em um dos bornais, retirou um baralho de tarô, exibiu umas cartas e fez um leque com elas, com as figuras voltadas para ele.
- Retire uma dessas cartas, com a mão esquerda, sem olhar a frente dela, e me entregue, disse Paxola a Ester.
Mesmo receosa, Ester atendeu ao pedido, sob o olhar de espanto das amigas.
Paxola olhou a carta, fixou os olhos em Ester, com ar enigmático, frangiu a testa, respirou fundo, fez um aceno negativo, com um meneio de cabeça e, quase em tom de cochicho, falou:
- Ester, minha amiga, você precisa se cuidar. Por enquanto, só posso lhe dizer isso.
Todas se entreolharam assustadas.
- Isso significa o que? Indagou Mariza, uma loira bem maquiada e ostentando vestes e joias distintas, e que era a Diretora do Colégio, onde aquele grupo trabalhava.
- Não se preocupem. É coisa que eu posso resolver. Mas nesse barulho, não dá. Estou aguardando a chegada do Govenador, mas posso ir com ela até a esquina do prédio quatro, e analisar melhor o problema e voltar logo.
As amigas se juntaram, falando bem baixo, em uma espécie de conferência e, de imediato, chegaram a um veredito.
- Ester só vai com você até a esquina, se for com a gente, definiu Mariza.
- Tudo bem, vamos lá então, disse Paxola.
Foi nesse momento que o potente alto falante do carro de som, anunciou, na voz de Geraldo Cavalcante, a chegada da comitiva do Governador. O povo todo correu para as proximidades do palanque, no maior alvoroço. Paxola se perdeu do grupo.
Infindos discursos e demorados aplausos, se sucederam até as dezenove horas, quando foi anunciado o início do show de Benito de Paula, que estava no auge da carreira.
Por maior que fosse a euforia do grupo das professoras campinenses, Ester não tirava da cabeça as palavras de Paxola. Ela estava prestes a se casar e seu noivo era caminhoneiro, divorciado com dois filhos, o que lhe deixava apreensiva. Além disso ela aguardava o resultado de uma biópsia da sua mãe. Essa situação parecia ter explodido em sua mente depois da conversa com aquele cigano. Tinha de voltar a falar com ele
Passava das nove horas quando o show acabou e o público começou a se dispensar, com as comitivas do interior se dirigindo em direção aos ônibus.
E Ester avistou Paxola, junto à parede de um dos prédios inaugurados naquele dia, bem distante do povo, conversando com uma mulher.
Ester, levada pela angustia, se desvencilhou das amigas e se dirigiu ao cigano.
- E então Paxola? Vamos ver o meu caso agora?
- Ester, posso lhe ajudar, mas sou profissional. No seu caso, a minha consulta é dois mil cruzeiros, com pagamento adiantado. Estou atendendo essa cliente, que já pagou, e se você tiver interesse, daqui a pouco a gente conversa. Respondeu Paxola, com arrogância.
Ester ficou pensativa, enquanto fazia o cálculo do que significava aquele valor cobrado por Paxola, em relação aos seus vencimentos. Era quase quatro salário mínimos, e ela, contando a renda de dois empregos, só ganhava um pouco mais de cinco salários. Era muito caro, mas a ânsia para saber qual o mistério que Paxola tinha a revelar e o que ele faria para ajudá-la, valia a pena e resolveu pagar.
Pouco depois a cliente saiu muito sorridente e Ester se aproximou.
- Está com dinheiro? Perguntou Paxola
- Não. Mas você recebe um cheque?
- Sim. Pode passar. Disse Paxola, retirando um caderno do bornal, para melhor apoiar a assinatura do cheque.
Ester deu uma olhada em volta para ter certeza que suas colegas não estavam vendo, assinou e entregou. Paxola conferiu e o colocou no bornal.
A pedido do cigano, Ester retirou uma carta do baralho e passou para Paxola, que repetiu o mesmo gesto que fez anteriormente.
- Ester, você deseja fazer uma viagem, mas, uma amiga de trabalho, por ciúmes, está tentando lhe prejudicar. Você já ajudou muito essa pessoa. Vou derrubar essa mandinga dela. Toque com seu dedo indicador da mão direita, nessa carta e isso tá resolvido, disse Paxola e continuou:
- Uma pessoa de sua família, ou um amigo seu, vai passar, ou está passando, por sérios problemas de saúde. Vou cuidar dela com carinho. Coloque as duas mãos sobre esse baralho, e pronto.
Ester ia fazendo tudo que Paxola mandava.
- E tem mais Ester, no seu trabalho vai ocorrer mudanças, e você pode ser prejudicada. Vamos resolver isso, mas não agora. Na próxima vez que você chegar lá, coloque uma colher de sal grosso com pimenta, na descarga do sanitário que o seu chefe usa, e pronto. Agora lhe dou um aviso, se esse cheque tiver o pagamento suspenso, tudo que aqui fizemos será desmanchado.
Ester respirou aliviada, agradeceu, apertou a mão de Paxola, e saiu rápida em direção ao ônibus.
Paxola retirou os quatro cheques que recebeu naquela tarde, deu um cheiro naqueles papéis, se benzeu, e os recolocou no bornal.
Atento a essas ações, Paxola não percebeu que dois investigadores se aproximaram para efetuar a sua prisão em flagrantes, pela quarta vez, por estelionato. Pelos cheques, as vítimas foram localizadas e compareceram à Delegacia. Ester, nada comentou com as colegas de trabalho, mas também colaborou com o trabalho da polícia.
As presepadas do Tenente Afanato
https://pt.wikipedia.org/wiki/Estelionato
