Ciência e Fé 

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Ciência e fé                Ciência e Fé é o registro de um fato real, ocorrido em 2015, no qual um médico foi vítima de um grave acidente de trânsito do qual escapou sem ferimentos, o que fez acreditar que foi um milagre. É o que passamos a narrar. 

    Miguel era um homem alto, magro, de porte elegante. Ginecologista havia doze anos, era muito conceituado no meio médico e integrava a direção da Cooperativa de Serviços Médicos. Não fumava nem bebia e seguia uma dieta saudável. Costumava ir à missa nas manhãs de domingo com a esposa. Prestava plantões em João Pessoa e cidades vizinhas. Estudioso da ciência médica e dotado de boa cultura geral, era uma pessoa de conversa agradável.

  1. Expressão de fé de um médico

     Na sexta-feira que antecedeu o carnaval de 2015, ao término de mais um plantão, quando já passava das dezoito horas, Miguel saiu apressado da sala de cirurgia. Entrou no berçário, observou o último dos recém-nascidos, demorou-se um pouco em uma oração silenciosa e seguiu para a área de repouso dos médicos, já desabotoando o jaleco. Aquela fora a quarta cesariana realizada naquele plantão.

     Já no alojamento onde trocaria de roupa, Miguel imaginava que adereços usaria naquela noite para assistir ao desfile do bloco “Cafuçu”, único festejo carnavalesco de que participava — e onde muito se divertia. Abriu o armário e sentiu o cheiro característico dos produtos de limpeza. Ainda pensando no Cafuçu, não percebeu a entrada do colega Gadelha, que iria substituí-lo.

     — Miguel — disse o recém-chegado —, há cinco cirurgias agendadas para esta noite. Todas de risco. Vou precisar de você, amigo.

    — Mas rapaz, eu vou para o Cafuçu daqui a pouco — respondeu Miguel, já retirando o jaleco.

     — Amigo, são cinco mulheres pobres, como todas as que procuram este hospital. Estão com suas vidas e as dos filhos em sério risco. Sua ajuda é muito importante.

   Miguel encarou o colega e ficou em silêncio por alguns instantes, ainda pensando no Cafuçu. Mas, consciente da importância do pedido, sentiu que o dever o chamava.

   — Está bem, Gadelha. Mas vamos apressar, que ainda quero ir ao Cafuçu. Vou fazer um lanche na cantina e volto já. Veja o que você pode ir adiantando.

     E saiu pelo corredor, deixando ecoar seus passos firmes.

    O trabalho começou em conjunto. Tudo deu certo, mesmo com muitas complicações, resolvidas graças à habilidade de Miguel. Quando a última cesariana terminou, já passava das três da manhã. Os dois médicos foram ao berçário ver o resultado: três meninas e dois meninos, todos saudáveis.

    Como sempre fazia nessas ocasiões, Miguel observou atentamente cada criança e, em silêncio, fez uma prece, agradecendo a Deus pela bênção de ajudar a trazer ao mundo aquelas criaturas.

    Despediu-se de Gadelha com um forte aperto de mão e tapinhas nos ombros. Estava exausto. Teve dificuldade para dormir, mas o leve ruído do ar-condicionado acabou por embalá-lo.

   2. Uma experiência extrasensorial, que contrariava e ciência  

    Na manhã seguinte, tinha plantão no interior. Dormiu pouco e, antes das sete horas, pegou a estrada. Após cerca de quarenta minutos, chegou ao destino. Das oito ao meio-dia, realizou as cirurgias agendadas.

     Um detalhe chamou sua atenção durante a habitual visita ao berçário: a última criança que ajudara a nascer era uma menina de olhos azuis, cabelos loiros abundantes, que lhe sorriu de forma quase angelical. A cirurgia fora complicada, exigindo grande habilidade, mas Miguel não revelara a gravidade aos auxiliares, para não causar apreensão.

     Era a primeira filha de uma jovem e bela mãe solteira. Na etiqueta do pulso lia-se: “Maíra”.

    Miguel fixou o olhar na criança, sentindo-se como se estivesse hipnotizado, o que lhe causou estranheza. Respirou fundo e atribuiu aquela sensação ao cansaço.

    Pegou a estrada de volta sob uma chuva suave. O verde intenso da vegetação cobria as margens da rodovia, contrastando com o cinza delicado dos contrafortes da serra da Borborema, ao longe.

    O esforço para permanecer acordado era grande. Manteve velocidade reduzida.

3. Um acidente de resultado inexplicável

    Após cerca de dez quilômetros, aproximou-se de um caminhão que seguia lentamente. Decidiu ultrapassá-lo e acelerou, mas percebeu que outro veículo, vindo atrás, também iniciara a manobra em alta velocidade, tornando a situação perigosa.

    Miguel desistiu e retornou à sua faixa. O outro carro passou rapidamente. Ao retornar, estava muito próximo do caminhão. Tentou frear, mas não conseguiu evitar a colisão. O Corolla entrou sob a traseira do caminhão. Os airbags foram acionados. Uma leve fumaça azul tomou o interior do veículo.

    Miguel ficou atordoado por instantes.

   De repente, alguém abriu a porta e perguntou:

    — Miguel, você está bem?

    Ainda confuso, ele piscou várias vezes até conseguir enxergar a figura à sua frente: uma jovem mulher, clara, bem vestida, de olhos azuis e sorriso sereno.

— Estou... — respondeu, tentando soltar o cinto de segurança.

     Dois homens o ajudaram a sair do carro. Ao se examinar, constatou, com surpresa, que não tinha ferimentos. O carro, porém, estava completamente destruído. Ele começou a pensar que aquilo foi um milagre o que colocava em um confronto entre a ciência e a fé.

    Ademar, motorista do caminhão, pediu que ele fosse para o acostamento enquanto aguardavam a Polícia Rodoviária. Aos poucos, curiosos se aproximavam.

    De repente, Miguel perguntou:

— Cadê aquela mulher?

— Que mulher, amigo? — respondeu Ademar, intrigado. — Aqui não tem mulher nenhuma.

— Aquela loira de olhos azuis que abriu a porta do carro. Ela me chamou pelo nome.

— Acho que você ainda está confuso. Espere a polícia chegar.

     A sirene anunciou a chegada da guarnição da Polícia Rodoviária. Após os procedimentos, Miguel foi levado ao hospital onde, pouco antes, era médico de plantão.

   Houve grande movimentação. Amigos e colegas chegaram. Após prestar esclarecimentos e tomar um calmante, pediu licença e foi repousar.

   Deitou-se e logo adormeceu.

   Sonhou que conversava com a jovem de olhos azuis. Ela se apresentou:

    — Eu sou Maíra.

    Miguel despertou sobressaltado e correu ao berçário. Maíra não estava lá. Ninguém sabia de sua existência. Naquela manhã, apenas dois partos haviam sido registrados: Adalto e Moacir.

   Confuso, Miguel voltou para casa e passou oito dias afastado, buscando compreender o ocorrido.

   Em um acidente daquela magnitude, sua sobrevivência parecia inexplicável. Seria um milagre?

    Leu textos científicos e filosóficos, mas não encontrou resposta. A ciência e a fé entravam em confronto.

    Após longa reflexão, rendeu-se àquilo que a razão não alcançava: a fé. 

    Concluiu que fora salvo por um milagre — e que Maíra fora o instrumento de Deus para esse desígnio.

https://institutoicm.com.br/category/ciencia-e-fe/

Paxola, o estelionatário.

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